O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia realizou, no dia 27 de março de 2026, a aula inaugural do curso de atualização “Integrar, cuidar e desinstitucionalizar: articulando a Atenção Básica e a Economia Solidária”. Com o tema “Reforma Psiquiátrica Brasileira e Baiana: vanguardismos, impasses e desafios”, o encontro reuniu estudantes, profissionais de saúde e gestores no auditório do Instituto, com transmissão ao vivo pelo YouTube.
A atividade marcou o início de um processo formativo voltado à qualificação do cuidado integral em saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente para pessoas em sofrimento psíquico, em processo de desinstitucionalização ou em situação de reinternação. Com carga horária de 120 horas, o curso articula atividades teóricas e práticas, presenciais e virtuais, e tem como foco fortalecer o cuidado territorial, a reintegração social e o papel estratégico da Atenção Primária à Saúde (APS) nesse processo.
A mesa de abertura contou com a participação de três importantes referências na área: a psiquiatra Ana Pitta, diretora emérita da ABRASME; a professora Mônica Nunes, docente titular do ISC/UFBA e coordenadora do NISAM; e o psicólogo Martín Mezza, diretor da APOLa-SSA e pesquisador do Instituto. O encontro reforçou o caráter histórico, político e ético da Reforma Psiquiátrica como um processo em permanente construção.
Durante sua exposição, Martín Mezza apresentou uma leitura histórica das formas de tratamento da loucura, evidenciando como práticas de exclusão e institucionalização se consolidaram ao longo do tempo. Ao percorrer desde a chamada “nau dos loucos” até o modelo manicomial, destacou como a medicalização da vida e a centralidade do saber psiquiátrico contribuíram para a segregação. Em contraponto, ressaltou a Reforma Psiquiátrica como um movimento que propõe a construção de um novo lugar social para a loucura, baseado no território, na comunidade e no cuidado em liberdade, com papel central da APS na produção de cuidado integral.
Na sequência, Mônica Nunes trouxe uma perspectiva crítica sobre a própria noção de loucura, questionando sua construção a partir de referências ocidentais, modernas e coloniais. A professora destacou a importância de compreender o sofrimento psíquico a partir da experiência dos sujeitos, inseridos em seus contextos culturais e sociais, evitando reduções diagnósticas e processos de patologização. Também ressaltou que a Reforma Psiquiátrica é um movimento ético, político e cultural, que exige não apenas mudanças nos serviços, mas uma transformação mais ampla nas formas de lidar com a diferença. Ao abordar o cenário brasileiro e baiano, apontou avanços importantes, como a ampliação dos CAPS e a redução de leitos psiquiátricos, mas também desafios persistentes, como o subfinanciamento, a precarização do trabalho e a permanência de práticas manicomiais.
Em sua fala, Ana Pitta enfatizou a Reforma Psiquiátrica como uma luta política contínua, que envolve não apenas mudanças institucionais, mas a defesa ativa de direitos e da democracia. A partir de sua trajetória, destacou a importância da Atenção Básica como espaço privilegiado de cuidado, onde é possível acolher as pessoas em seus territórios e fortalecer vínculos. Defendeu que o cuidado em saúde mental deve acontecer “perto da casa das pessoas”, considerando suas relações de vizinhança e vida cotidiana. A psiquiatra também chamou atenção para disputas em torno do financiamento da saúde mental, criticando o fortalecimento de comunidades terapêuticas em detrimento de serviços substitutivos, e reforçou que a política se sustenta na combinação entre indignação ética, compromisso coletivo e investimento público adequado.
Ao longo da atividade, também foram destacadas experiências e percepções de participantes, como o relato de um profissional da Atenção Primária que apontou a necessidade de superar modelos estritamente biomédicos e fortalecer a integração da saúde mental no cotidiano dos serviços. A aula inaugural, nesse sentido, consolidou-se como espaço de troca, formação e mobilização.
Mais do que um evento acadêmico, o encontro reafirmou a Reforma Psiquiátrica como um projeto vivo, que exige engajamento contínuo de profissionais, instituições e da sociedade. Ao articular formação, prática e compromisso político, o curso inaugura um caminho de fortalecimento do cuidado em liberdade e da construção de uma rede de atenção psicossocial mais inclusiva, territorializada e comprometida com os direitos humanos.
O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).






