Um estudo inédito desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e publicado recentemente na revista científica internacional PLOS Global Public Health evidencia a relação entre informalidade do trabalho e sofrimento psíquico em comunidades urbanas de Salvador. O artigo, intitulado “Employment status, occupational profile, and common mental disorders among workers in urban informal settlements in Brazil”, teve como primeira autora a mestranda Júlia Fernandes Cavalcanti Prestes, resultado de sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do ISC/UFBA, sob orientação dos professores Cleber Cremonese e Federico Costa.
A pesquisa integra um projeto longitudinal de base comunitária desenvolvido há aproximadamente seis anos por pesquisadores do Programa Integrado de Saúde Ambiental e do Trabalhador (PISAT/ISC-UFBA), coordenado pelos professores Federico Costa e Cleber Cremonese. O estudo acompanha comunidades urbanas de Salvador e busca compreender como as condições de vida, trabalho e ambiente impactam a saúde da população.
A investigação analisou dados de 587 trabalhadores e trabalhadoras, com idades entre 18 e 70 anos, residentes em cinco comunidades urbanas da capital baiana, e analisou o perfil ocupacional e a ocorrência de transtornos mentais comuns entre trabalhadores residentes em territórios marcados por desigualdades sociais e raciais. O objetivo foi compreender como diferentes formas de inserção no mercado de trabalho influenciam a saúde mental dessa população, frequentemente exposta à precarização laboral e à vulnerabilidade socioeconômica.
Os resultados mostram que a prevalência geral de transtornos mentais comuns foi de 14%. Entre os trabalhadores informais, entretanto, esse percentual alcançou 22,7%, quase três vezes maior do que o observado entre trabalhadores com vínculos formais.
Além da informalidade, o estudo identificou outros fatores associados ao sofrimento psíquico. Trabalhadores que relataram medo constante de perder o emprego apresentaram prevalência significativamente maior de transtornos mentais comuns. Entre os trabalhadores formais, mulheres e pessoas que conviviam com insegurança laboral demonstraram maior vulnerabilidade. Já entre os trabalhadores informais, a baixa renda apareceu como um dos principais fatores relacionados ao adoecimento mental.
Outro dado relevante aponta que trabalhadores mais jovens, especialmente aqueles entre 18 e 29 anos, apresentaram maiores níveis de sofrimento psíquico quando comparados às faixas etárias mais velhas. Os autores relacionam esse cenário às dificuldades de inserção em empregos estáveis, à expansão de formas precárias de trabalho e ao aumento da insegurança econômica enfrentada pelas novas gerações.
Saúde mental, desigualdades e trabalho
Um dos diferenciais do estudo é a utilização de dados primários coletados diretamente nos territórios. Segundo os pesquisadores, investigações dessa natureza permitem dar visibilidade a grupos que frequentemente permanecem fora das estatísticas oficiais.
Grande parte dos trabalhadores informais não está adequadamente representada nos sistemas de informação e nas bases administrativas utilizadas para monitorar as condições de trabalho e saúde no país. Dessa forma, pesquisas de base comunitária tornam-se fundamentais para identificar problemas que permanecem invisíveis aos sistemas convencionais de vigilância e produção de dados.
Os autores destacam que a realidade observada em Salvador reflete processos históricos de desigualdade social e racial que atravessam o mundo do trabalho. A maioria dos participantes da pesquisa se autodeclarou negra ou parda, evidenciando como a informalidade, a precarização laboral e a vulnerabilidade econômica afetam de forma desproporcional populações historicamente marginalizadas.
Contribuição para a Saúde Coletiva
Considerado um dos primeiros estudos brasileiros a investigar especificamente a relação entre informalidade laboral e transtornos mentais comuns em moradores de comunidades urbanas vulnerabilizadas, o trabalho contribui para ampliar o conhecimento sobre os impactos da precarização do trabalho na saúde mental.
Os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à proteção social, à ampliação da segurança no trabalho, à redução das desigualdades econômicas e ao fortalecimento das estratégias de atenção à saúde mental para populações em situação de vulnerabilidade.
A pesquisa foi desenvolvida por uma ampla rede de colaboração nacional e internacional envolvendo pesquisadores do ISC/UFBA, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Georgia State University, da Yale School of Public Health e da The London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), fortalecendo a produção de evidências científicas voltadas ao enfrentamento das desigualdades sociais e de saúde no Brasil.







