O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) manifesta profundo pesar pelo falecimento de Elza Salvatori Berquó, uma das mais importantes intelectuais brasileiras e referência incontornável nos campos da demografia, da saúde pública, dos direitos reprodutivos e da produção científica comprometida com a democracia e a justiça social.

Reconhecida nacional e internacionalmente por sua trajetória acadêmica e política, Elza Berquó dedicou sua vida à pesquisa, à educação e à defesa do conhecimento científico como instrumento de transformação social. Suas contribuições marcaram profundamente os estudos populacionais no Brasil e ajudaram a consolidar temas fundamentais para a Saúde Coletiva, como saúde sexual e reprodutiva, comportamento reprodutivo, juventudes, HIV/Aids e direitos das mulheres.

Suas pesquisas produziram evidências decisivas para a formulação de políticas públicas de saúde. Entre elas, destacam-se os estudos sobre esterilização feminina e sua relação com a epidemia de cesarianas no país, além de importantes investigações sobre sexualidade, saúde reprodutiva e HIV/Aids. Grandes pesquisas nacionais, como Comportamento Sexual da População Brasileira e Percepções do HIV/Aids e a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS 2006), contaram com sua liderança e seguem sendo referências para pesquisadores e gestores.

Para o ISC/UFBA, sua partida representa também a despedida de uma parceira histórica. Em 1998, por meio da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), então presidida por Elza Berquó, o Instituto realizou o seminário “Saúde e Direitos Reprodutivos no Brasil: Impacto da Conferência do Cairo nas Políticas Públicas”, iniciativa que resultou em uma publicação de referência para a área e fortaleceu o debate sobre direitos reprodutivos no país.

Outra contribuição marcante foi sua participação na criação e coordenação do Programa Interinstitucional de Treinamento em Metodologia de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Saúde Reprodutiva, uma parceria entre o ISC/UFBA, o NEPO/UNICAMP, o IMS/UERJ, a ENSP/FIOCRUZ e o Instituto de Saúde de São Paulo. Iniciado em 1997 com apoio da Fundação Ford, o programa foi desenvolvido ao longo de 12 anos e formou cerca de 200 alunos em cursos regionalizados, além de apoiar aproximadamente 100 bolsistas em pesquisas sobre temas fundamentais para a Saúde Coletiva. A iniciativa teve papel decisivo na constituição e fortalecimento do campo de estudos em gênero, sexualidade e saúde no Brasil.

Sua inteligência, generosidade intelectual, coragem e compromisso ético inspiraram gerações de pesquisadoras, pesquisadores, docentes, estudantes e profissionais da saúde. Seu legado ultrapassa fronteiras disciplinares e permanecerá vivo nas instituições que ajudou a construir, nas políticas que influenciou e nas inúmeras pessoas que tiveram o privilégio de aprender com ela.

Neste momento de despedida, o ISC/UFBA expressa solidariedade aos familiares, amigos, colegas e a toda a comunidade acadêmica brasileira que hoje lamenta a perda de uma de suas mais brilhantes cientistas.

Joilda Silva Nery
Diretora
Instituto de Saúde Coletiva 
Universidade Federal da Bahia