O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) realizou, no dia 12 de junho, mais uma edição do Saúde Coletiva em Debate, com o tema “Cigarros eletrônicos e desafios para o controle do tabagismo no Brasil”. A atividade foi coordenada pela professora Yara Oyram Ramos Lima (ISC/UFBA) e contou com a participação da pesquisadora Marcella Azulay, que apresentou resultados de sua dissertação de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do ISC/UFBA, na área de concentração em Vigilância Sanitária e Ambiental.
Na abertura da sessão, Yara destacou a relevância do tema para o campo da Vigilância Sanitária e para a Saúde Coletiva, especialmente diante da crescente circulação dos dispositivos eletrônicos para fumar entre adolescentes e jovens. A professora explicou que a escolha do objeto de pesquisa surgiu a partir de discussões realizadas no Grupo Temático de Vigilância Sanitária da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), onde a expansão do consumo desses produtos passou a ser identificada como uma questão emergente para a saúde pública.
Segundo a coordenadora, o fenômeno dos cigarros eletrônicos evidencia a capacidade de adaptação da indústria do tabaco diante dos avanços obtidos pelas políticas de controle do tabagismo. Yara observou que, após décadas de redução do consumo de cigarros convencionais impulsionadas por ações regulatórias e educativas, a indústria passou a investir em novos dispositivos que apresentam formatos mais atrativos, sabores variados e estratégias de marketing voltadas especialmente para o público jovem.
A professora também ressaltou que a ampla comercialização desses produtos, apesar da proibição vigente no país, evidencia os desafios relacionados à fiscalização e ao controle sanitário. Para ela, o cenário atual demonstra a necessidade de fortalecer tanto as ações regulatórias quanto a capacidade do Estado de monitorar e coibir a circulação irregular dos dispositivos. Yara destacou ainda que compreender esse fenômeno exige uma abordagem ampliada, capaz de considerar não apenas os danos à saúde, mas também os interesses econômicos, as estratégias de mercado e os processos sociais que influenciam o consumo.
Durante sua apresentação, Marcella Azulay contextualizou o tabagismo como um dos principais problemas de saúde pública no mundo. A pesquisadora lembrou que a dependência da nicotina está associada a milhões de mortes anuais e a diversas doenças crônicas, além de produzir impactos econômicos, sociais e ambientais. Ela ressaltou que o Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, uma trajetória reconhecida internacionalmente no controle do tabagismo, baseada em medidas legislativas, regulatórias e de promoção da saúde.
Ao abordar os cigarros eletrônicos, Marcella explicou que esses dispositivos foram inicialmente desenvolvidos como uma alternativa para cessação do tabagismo, mas passaram a se popularizar principalmente entre adolescentes e jovens. Entre os fatores que contribuem para esse crescimento estão o design moderno dos produtos, a diversidade de sabores e aromas disponíveis e a intensa presença em estratégias de publicidade e comunicação. A pesquisadora alertou que a literatura científica já aponta riscos importantes associados ao uso desses dispositivos, incluindo danos cardiovasculares, pulmonares e neurológicos, além da possibilidade de uso combinado com cigarros convencionais.
A apresentação teve como base uma revisão integrativa da literatura científica analisada sob a perspectiva do modelo da Vigilância da Saúde. A partir da análise de 109 produções científicas, a pesquisadora identificou que a maior parte dos estudos concentra-se nos riscos e agravos associados ao uso dos cigarros eletrônicos, enquanto aspectos relacionados aos determinantes sociais, econômicos e políticos do consumo ainda recebem atenção limitada. Também foi observada uma presença reduzida de pesquisas voltadas às estratégias assistenciais e aos chamados eixos transversais da vigilância, como comunicação, educação em saúde e cooperação institucional.
Entre as conclusões do estudo, Marcella destacou que a literatura científica ainda apresenta uma compreensão fragmentada do fenômeno, centrada predominantemente na identificação de riscos. Segundo ela, o modelo ampliado da Vigilância da Saúde contribui para compreender o problema de forma mais abrangente, incorporando dimensões relacionadas às causas estruturais do consumo, aos riscos, aos danos e aos mecanismos institucionais necessários para o enfrentamento da questão. A pesquisadora defendeu a necessidade de respostas integradas, capazes de articular produção científica, regulação, fiscalização, educação em saúde e participação social.
O debate que se seguiu à exposição aprofundou reflexões sobre a atuação da Vigilância Sanitária, os limites das estratégias de proibição diante da expansão do mercado ilegal, a influência das ações de marketing na construção de hábitos de consumo entre jovens e os desafios enfrentados pelo Estado para responder a problemas complexos produzidos pela dinâmica contemporânea do mercado. Os participantes também destacaram a importância de ampliar a produção de conhecimento sobre os determinantes sociais e culturais envolvidos na exposição aos riscos relacionados ao uso desses dispositivos.
Ao final da atividade, foi reforçada a necessidade de fortalecer a articulação entre pesquisa, vigilância sanitária e formulação de políticas públicas, de modo a enfrentar os desafios colocados pelos cigarros eletrônicos e preservar os avanços conquistados pelo Brasil no controle do tabagismo nas últimas décadas.
O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).






