A importância de aproximar a produção científica das decisões que impactam diretamente a vida das pessoas esteve no centro da edição do Saúde Coletiva em Debate, realizada no dia 29 de maio, no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA). Com o tema “A importância da Tradução do Conhecimento no apoio à gestão em saúde e na promoção da equidade”, a sessão foi coordenada pela professora Isabela Cardoso M. Pinto, do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS/ISC), e contou com a participação da jornalista Fabiana Mascarenhas, coordenadora da Assessoria de Comunicação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Brasília.

Ao abrir a atividade, Isabela Pinto ressaltou que a discussão sobre Tradução do Conhecimento ganha relevância em um contexto em que a produção científica precisa dialogar cada vez mais com as necessidades concretas da sociedade. Segundo a professora, não basta produzir dados, análises e evidências de qualidade; é necessário refletir sobre as formas pelas quais essas informações chegam aos gestores, profissionais de saúde, movimentos sociais e à população em geral. Para ela, a pesquisa científica deve ser compreendida como uma prática social comprometida com a transformação da realidade e com o fortalecimento das políticas públicas.

A coordenadora da sessão destacou ainda que os desafios contemporâneos da saúde exigem uma aproximação permanente entre conhecimento científico e processos de tomada de decisão. Nesse sentido, a Tradução do Conhecimento representa uma estratégia fundamental para ampliar o alcance social das pesquisas e potencializar seus impactos na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas. Isabela enfatizou que o tema tem mobilizado pesquisadores e instituições em diferentes países, especialmente diante da necessidade de responder a problemas complexos de forma mais rápida, qualificada e baseada em evidências.

Outro aspecto enfatizado pela professora foi a responsabilidade das instituições acadêmicas em tornar o conhecimento produzido mais acessível e útil para diferentes públicos. Ela observou que a discussão ultrapassa a simples divulgação científica e envolve o compromisso ético de garantir que informações produzidas com recursos públicos retornem à sociedade em formatos compreensíveis e relevantes. Para Isabela, fortalecer os processos de comunicação e tradução das evidências é também fortalecer a democracia, a participação social e a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de responder às necessidades da população.

Durante a conferência, Fabiana Mascarenhas apresentou os principais conceitos relacionados à Tradução do Conhecimento, estratégia que busca transformar evidências científicas em informações acessíveis e úteis para diferentes públicos. A palestrante ressaltou que a Tradução do Conhecimento não se resume à simplificação da linguagem científica, mas envolve um processo contínuo que vai desde a produção das evidências até sua implementação em políticas, programas e práticas de saúde.

A jornalista apresentou estudos que evidenciam as dificuldades enfrentadas por gestores públicos no acesso e utilização de evidências científicas. Entre os principais desafios estão a linguagem excessivamente técnica das publicações acadêmicas, a incompatibilidade entre o tempo da produção científica e o tempo das decisões de gestão, além da falta de materiais sintéticos e aplicáveis às realidades locais.

Dados apresentados durante a palestra mostram que gestores frequentemente recorrem a fontes como imprensa, diretrizes ministeriais e mecanismos de busca para acessar informações sobre saúde, enquanto periódicos científicos aparecem entre as fontes menos utilizadas. Segundo Fabiana, esse cenário reforça a necessidade de produzir conteúdos mais acessíveis, objetivos e adequados às demandas dos tomadores de decisão.

Outro tema abordado foi o crescimento da desinformação e das chamadas fake news, especialmente na área da saúde. Para a palestrante, o fenômeno representa um importante desafio para a saúde pública. “As pessoas estão morrendo por conta de notícias falsas. Fake news mata”, afirmou, destacando a importância de fortalecer estratégias de comunicação baseadas em evidências científicas.

Ao relacionar Tradução do Conhecimento e equidade, Fabiana defendeu que a comunicação em saúde deve ser compreendida como uma dimensão estruturante das políticas públicas e não apenas como uma ferramenta de divulgação. Segundo ela, a comunicação precisa estar alinhada aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente à equidade, reconhecendo que diferentes grupos sociais possuem necessidades, contextos e formas distintas de acessar e compreender informações.

“A comunicação não pode ser padronizada. Ela precisa considerar quem são os públicos com os quais queremos dialogar, suas realidades, experiências e condições de vida”, afirmou.

A palestrante também compartilhou experiências desenvolvidas no Ministério da Saúde durante sua atuação na área de ciência, tecnologia e inovação. Entre elas, destacou a inclusão da obrigatoriedade de produtos de tradução do conhecimento em editais de pesquisa financiados pelo governo federal, a realização de oficinas de sensibilização para pesquisadores e a produção de materiais de comunicação voltados à gestão durante a pandemia de Covid-19.

Segundo Fabiana, iniciativas como sínteses de evidências, infográficos, boletins, podcasts e outros formatos adaptados a diferentes públicos têm se mostrado estratégias importantes para ampliar o uso do conhecimento científico nas políticas públicas e fortalecer a tomada de decisão baseada em evidências.

Encerrando a atividade, a jornalista citou o publicitário David Ogilvy e reforçou que comunicar não significa apenas disponibilizar informações, mas garantir compreensão e diálogo.

O debate reforçou a relevância da Tradução do Conhecimento como instrumento para fortalecer a gestão em saúde, ampliar o uso social da pesquisa científica e promover maior equidade no acesso à informação, contribuindo para o fortalecimento do SUS e para a construção de políticas públicas mais eficazes e democráticas.

O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).