O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) realizou, no dia 18 de setembro, mais uma sessão do Saúde Coletiva em Debate, com o tema “Uso de dados e indicadores para monitorar e avaliar a situação de saúde no Brasil: a experiência da RIPSA”. O encontro reuniu pesquisadores e gestores para discutir como dados produzidos pelos sistemas de informação podem ser transformados em indicadores capazes de subsidiar o monitoramento da situação de saúde e a tomada de decisões no Sistema Único de Saúde (SUS).

A sessão foi coordenada pela professora Maria Yury Travassos Ichihara, do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e do ISC/UFBA, e moderada por Luci Scheffer, do Departamento de Monitoramento e Avaliação em Saúde (DEMAS), da Secretaria de Informação e Saúde Digital (Seidigi) do Ministério da Saúde, e da Secretaria Executiva da Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA). Na abertura, Luci destacou o crescimento da disponibilidade de dados e a necessidade de qualificá-los e disseminá-los adequadamente, ressaltando o papel da RIPSA como uma instância voltada à qualificação das informações em saúde.

Criada em 1996 e reativada em 2023, a RIPSA articula instituições de ensino e pesquisa, órgãos governamentais e outras entidades em torno da produção, análise, qualificação e disseminação de dados, informações e indicadores sobre as condições de saúde da população. Durante a sessão, três perspectivas complementares foram apresentadas: a trajetória e atuação da Rede, o processo participativo de construção dos indicadores e o desenvolvimento de estratégias para monitorar desigualdades em saúde.

Paulo Sellera: transformar dados em conhecimento para apoiar decisões

O secretário adjunto da Seidigi/Ministério da Saúde, Paulo Sellera, apresentou um panorama histórico e institucional da RIPSA. Segundo ele, a Rede funciona de maneira colaborativa e não hierarquizada, reunindo diferentes instituições para produzir, analisar e disseminar informações sobre as condições de saúde e suas tendências. Sellera explicou que a estrutura inclui uma secretaria técnica, comitês permanentes responsáveis pela gestão e qualificação dos indicadores e comitês temáticos dedicados a questões prioritárias. As decisões são construídas por consenso, buscando reunir diferentes experiências técnicas e científicas.

Ao abordar os desafios atuais, Sellera ressaltou que ampliar a produção de dados, isoladamente, não é suficiente. As informações precisam ser acessíveis, abertas, rastreáveis, reutilizáveis e passíveis de integração em diferentes ambientes digitais. Nesse contexto, apresentou iniciativas de disseminação desenvolvidas após a retomada da RIPSA, incluindo a atualização das fichas de qualificação dos indicadores, ferramentas de interoperabilidade e plataformas de acesso aos dados. Para o gestor, o percurso entre a produção do dado e sua utilização envolve análise, sistematização e qualificação, etapas necessárias para transformar informação em conhecimento útil à tomada de decisão.

Sellera também destacou que a disponibilidade de indicadores construídos a partir de dados válidos e confiáveis é fundamental para análises consistentes da situação sanitária. A padronização das informações permite ampliar a comparabilidade, a integração analítica e a consistência dos indicadores produzidos em diferentes contextos. Na avaliação apresentada durante a sessão, a aproximação entre instituições científicas, gestores e demais integrantes da Rede contribui para fortalecer o uso de evidências no planejamento, monitoramento e avaliação das ações do SUS.

Débora Malta: construção coletiva e qualificação dos indicadores

A professora Débora Malta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apresentou os bastidores da elaboração da terceira edição do chamado Livro Verde da RIPSA, enfatizando o caráter participativo do processo. A pesquisadora destacou a colaboração entre universidades, instituições de pesquisa e órgãos de gestão na retomada das atividades da Rede e na revisão dos indicadores. O trabalho envolveu a discussão detalhada das fichas e a construção de consensos técnicos entre pesquisadores e profissionais com diferentes áreas de especialização.

Malta explicou que os indicadores estão distribuídos em áreas como demografia, condições socioeconômicas, mortalidade, morbidade, fatores de risco e proteção, cobertura e recursos em saúde. Cada ficha passou por processos de discussão, revisão e harmonização nos Comitês de Gestão de Indicadores. Além da definição do próprio indicador, as fichas reúnem informações sobre fontes de dados, metodologia de cálculo, limitações, possibilidades de desagregação e responsabilidades técnicas, buscando favorecer tanto a utilização na gestão quanto a reprodução das análises pela comunidade científica.

A pesquisadora também apresentou exemplos do trabalho desenvolvido no Comitê de Fatores de Risco e Proteção, que coordena, mostrando como diferentes fontes de informação podem ser utilizadas para acompanhar fenômenos relacionados às doenças crônicas e aos seus fatores de risco. A experiência, segundo a exposição, evidencia que a produção de um indicador não termina no cálculo de um número: exige conhecimento sobre a origem dos dados, padronização metodológica, avaliação de sua qualidade e atualização periódica para que as informações possam efetivamente contribuir para o monitoramento da saúde.

Maria Yury: tornar as desigualdades visíveis nos indicadores

Encerrando o ciclo de apresentações, Maria Yury Travassos Ichihara abordou o monitoramento das desigualdades em saúde no contexto brasileiro. A pesquisadora ressaltou que indicadores gerais podem revelar tendências importantes, mas nem sempre permitem compreender como os resultados se distribuem entre diferentes grupos sociais e territórios. Por isso, defendeu a incorporação mais sistemática da perspectiva das desigualdades às análises de situação de saúde, considerando a complexidade e a multicausalidade desses processos.

A professora apresentou o trabalho do Comitê Temático Interdisciplinar de Desigualdades em Saúde da RIPSA, criado para discutir metodologias e estratégias capazes de tornar essas diferenças mais visíveis. Entre os desafios está a definição de dimensões e estratificadores adequados, assim como o desenvolvimento de análises que possam ser utilizadas em diferentes escalas territoriais. O grupo também trabalha na produção e disseminação de metodologias e em iniciativas de formação para profissionais e gestores, buscando ampliar a capacidade de interpretação dos indicadores sob a perspectiva das desigualdades.

Maria Yury mostrou ainda que existem diferentes formas de mensurar desigualdades, desde medidas mais simples, baseadas em diferenças entre grupos, até métodos que permitem observar padrões de concentração e distribuição. A escolha da metodologia, explicou, depende do fenômeno analisado, da disponibilidade e qualidade dos dados e da pergunta que se pretende responder. A proposta é avançar para um monitoramento que não se limite a apresentar médias ou resultados agregados, mas que permita identificar onde e entre quais grupos persistem diferenças relevantes nas condições de saúde.

Ao reunir as três abordagens, a sessão evidenciou diferentes etapas de um mesmo processo: produzir dados, transformá-los em indicadores tecnicamente consistentes, disseminá-los de forma acessível e utilizá-los para compreender tanto a situação geral de saúde quanto às desigualdades existentes no país. O debate também reforçou a importância da cooperação entre universidades, instituições de pesquisa e gestão pública para qualificar esse processo.

A experiência da RIPSA apresentada no Saúde Coletiva em Debate mostrou que a existência de grandes volumes de dados não garante, por si só, informação útil para a Saúde Coletiva. A definição de metodologias, a avaliação da qualidade das fontes, a comparabilidade, a atualização dos indicadores e a capacidade de interpretar as desigualdades são etapas fundamentais para que essas informações possam apoiar o planejamento, o monitoramento e a avaliação das políticas e ações de saúde no Brasil.