O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) realizou, no dia 13 de março de 2026, o seminário “Saúde Coletiva em Debate – Especial Aula Inaugural do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC)”, como encerramento da semana de acolhimento aos novos estudantes do programa. O evento foi a sessão inaugural do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, para o ano de 2026 e teve a saudação de boas-vindas aos estudantes feita pela coordenação do programa, a Profa. Monique Esperidião.
Com o tema “Uso crítico da inteligência artificial nos processos formativos e na pesquisa em Saúde Coletiva”, o encontro reuniu os professores Adriano de Lemos Alves Peixoto (IPSS-UFBA e SUPAD-UFBA), André Stangl (ISC-UFBA) e Naomar Monteiro de Almeida Filho (ISC-UFBA). O debate buscou problematizar as implicações epistemológicas, éticas, políticas e pedagógicas das tecnologias de inteligência artificial no contexto da universidade, da pós-graduação e das políticas públicas em saúde.
O professor Adriano Peixoto apresentou uma reflexão sobre os efeitos da inteligência artificial nas profissões e no mundo do trabalho. Partindo da sociologia das profissões, ele destacou que muitas atividades profissionais historicamente se estruturaram em torno do domínio de conhecimentos especializados adquiridos por meio da formação universitária. Entretanto, no momento, ferramentas de IA generativa já demonstram capacidade de realizar tarefas cognitivas complexas, o que exige novas formas de reflexão sobre formação profissional, integridade científica e produção de conhecimento.
Peixoto também chamou atenção para os impactos na produção científica. Com o aumento da utilização de sistemas automatizados para redação e revisão de textos acadêmicos, cresce o volume de artigos submetidos às revistas científicas, o que tem provocado preocupações sobre integridade científica, confiabilidade dos dados e qualidade das publicações. Para ele, diante desse cenário, a universidade tem um papel central: “Precisamos formar profissionais capazes de utilizar essas tecnologias de forma crítica e responsável. A universidade deve ser um espaço de defesa da produção de conhecimento confiável e socialmente comprometido.”
Na sequência, o professor André Stangl discutiu a inteligência artificial a partir de uma perspectiva filosófica e cultural, ressaltando que as tecnologias sempre mediaram a produção do conhecimento ao longo da história, sendo a inteligência artificial mais uma etapa desse processo histórico. Ao mesmo tempo, Stangl alertou para os riscos de padronização epistêmica, caso as tecnologias sejam utilizadas sem reflexão crítica ou sem considerar a diversidade cultural e epistemológica.
Leia mais sobre a participação do professor pelo: https://andrestangl.com/2026/03/13/a-ecologia-do-conhecimento-na-era-das-ias/
Encerrando o debate, o professor Naomar de Almeida Filho enfatizou a importância do papel da universidade na análise crítica das transformações tecnológicas contemporâneas. Para o pesquisador, muitas narrativas atuais sobre IA são marcadas por discursos de entusiasmo ou temor exagerado, frequentemente alimentados por interesses econômicos e pela lógica de inovação tecnológica associada ao mercado.
Segundo ele, a universidade deve contribuir para uma compreensão mais rigorosa e crítica dessas tecnologias, evitando tanto visões alarmistas quanto interpretações simplificadas. Nesse contexto, Naomar defendeu que o debate sobre inteligência artificial deve considerar não apenas aspectos tecnológicos, mas também dimensões políticas, sociais e institucionais da produção do conhecimento.
Ao promover a discussão sobre inteligência artificial, o evento reforça a importância de incorporar a discussão nos processos formativos em Saúde Coletiva, a fim de acompanhar as transformações contemporâneas que impactam a ciência, a formação profissional e o sistema de saúde.
O evento contou com acessibilidade em Libras e está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).






