O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia realizou, no dia 10 de abril, mais uma edição do Saúde Coletiva em Debate, reunindo pesquisadores, estudantes e profissionais de saúde para refletir sobre o tema “Transformações do setor privado no Brasil: implicações para o sistema de saúde universal e o direito à saúde”.
Coordenada pela professora Catharina Matos (ISC/UFBA), a sessão contou com a participação da professora Lígia Bahia e do professor Leonardo Mattos, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e referências nacionais nos estudos sobre políticas de saúde, financiamento e relações público-privadas no Sistema Único de Saúde (SUS).
Na abertura, foi destacado que o debate se insere em uma agenda de pesquisa articulada entre o ISC/UFBA e grupos da UFRJ, voltada à análise das transformações recentes no setor saúde e suas implicações para a Reforma Sanitária Brasileira. A proposta da sessão foi aprofundar a compreensão sobre a crescente complexidade das relações entre o público e o privado, tema central para o futuro do sistema de saúde brasileiro.
Em sua exposição, Leonardo enfatizou a importância de compreender o setor privado como um componente heterogêneo e dinâmico dos sistemas de saúde. Segundo ele, esse setor abrange desde hospitais e clínicas até grandes grupos econômicos e empresas de tecnologia, influenciando diretamente a oferta, o financiamento e o desempenho dos serviços de saúde. O docente destacou que as transformações recentes, marcadas por processos como financeirização, digitalização e expansão de novos mercados, têm reconfigurado o papel do setor privado no Brasil e no mundo.
O pesquisador também chamou atenção para o caráter contraditório do sistema de saúde brasileiro, que combina, de um lado, a universalização do acesso promovida pelo SUS e, de outro, a expansão de formas de privatização da assistência. Essa dinâmica, segundo ele, produz tensões estruturais, como a segmentação do sistema, a desigualdade no acesso aos recursos e a competição entre setores por financiamento, infraestrutura e força de trabalho.
Na sequência, a professora Lígia Bahia aprofundou a análise ao discutir as transformações recentes do setor privado à luz do processo histórico de construção do sistema de saúde brasileiro. Em sua fala, destacou que a expansão do mercado de planos de saúde e de serviços privados não ocorre de forma isolada, mas articulada a políticas públicas, incentivos estatais e dinâmicas econômicas mais amplas, o que contribui para consolidar um modelo segmentado de acesso à saúde. Segundo a pesquisadora, essa segmentação tensiona diretamente os princípios da universalidade e da equidade, ao organizar o cuidado a partir da capacidade de pagamento e da inserção no mercado de trabalho.
Lígia também ressaltou que o debate sobre o setor privado não deve se restringir à sua existência, mas à forma como ele se integra – ou compete – com o SUS. Nesse sentido, apontou que a coexistência entre público e privado, nos moldes atuais, tende a aprofundar desigualdades e dificultar a consolidação de um sistema verdadeiramente universal. A professora defendeu a necessidade de enfrentar essas contradições com base em evidências e em uma análise crítica das relações de poder e dos interesses econômicos envolvidos, como condição para o fortalecimento do direito à saúde no Brasil.
Ao reunir especialistas de referência nacional, o encontro reafirmou a relevância do Saúde Coletiva em Debate como um espaço de reflexão crítica e produção de conhecimento, contribuindo para o fortalecimento de um sistema de saúde universal, equitativo e público, em consonância com os princípios do SUS e da Reforma Sanitária Brasileira.
O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).






