O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia realizou, no dia 17 de abril de 2026, mais uma edição do Saúde Coletiva em Debate, reunindo estudantes, pesquisadores e profissionais para uma reflexão crítica sobre tecnologia, sociedade e saúde. Com o tema “Milton Santos, a técnica e as rugosidades coloniais”, a sessão integrou as atividades em alusão ao centenário do geógrafo Milton Santos, um dos mais importantes intelectuais brasileiros.
A abertura do encontro destacou a relevância do tema diante das transformações tecnológicas contemporâneas e seus impactos no campo da saúde. A atividade foi coordenada pelo professor Naomar de Almeida Filho e contou com a participação do pesquisador Davidson Faustino, da Faculdade de Saúde Pública da USP, como palestrante convidado. O auditório recebeu também estudantes visitantes, ampliando o diálogo entre diferentes instituições e territórios.
Partindo das contribuições teóricas de Milton Santos, o debate propôs uma análise crítica do papel da técnica e das tecnologias digitais no mundo contemporâneo. A discussão evidenciou que, embora as inovações ampliem as possibilidades de produção de conhecimento, diagnóstico e gestão em saúde, elas também podem reproduzir e intensificar desigualdades históricas, como o racismo e o sexismo, especialmente quando incorporadas a sistemas algorítmicos e bases de dados.
Em sua exposição, Davidson Faustino apresentou a proposta de pensar uma “outra saúde digital”, inspirada na obra de Milton Santos. O pesquisador destacou que as tecnologias não são neutras: elas refletem as contradições sociais e os contextos históricos em que são produzidas. Nesse sentido, a digitalização da saúde deve ser analisada à luz das relações entre capitalismo, racismo e produção de subjetividades, considerando tanto seus potenciais quanto seus limites.
A partir do conceito de “rugosidades”, Milton Santos permite compreender como marcas do passado permanecem inscritas no presente, influenciando as formas como as tecnologias são desenvolvidas e aplicadas. No campo da saúde, isso implica reconhecer que desigualdades estruturais podem ser reproduzidas — e até ampliadas — por sistemas digitais, exigindo uma abordagem crítica e comprometida com a equidade.
Outro ponto central do debate foi a discussão sobre o chamado “colonialismo digital”, conceito que aponta para a concentração global do poder tecnológico e para novas formas de exploração associadas à produção e uso de dados. A crescente centralidade das tecnologias digitais na organização da vida social, incluindo o cuidado em saúde, levanta questões éticas, políticas e econômicas que desafiam o campo da Saúde Coletiva a repensar suas práticas e fundamentos.
A sessão reforçou a importância de integrar ciência, tecnologia e reflexão crítica para a construção de práticas de saúde mais inclusivas, democráticas e alinhadas aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).
O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).





