O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) realizou, no dia 19 de junho, mais uma edição do Saúde Coletiva em Debate, com a palestra Embodied Racism, Embodied Resistance: Insights on Racial Health Inequities from the U.S. South. Ministrada em inglês, com tradução simultânea e interpretação em Libras, a atividade reuniu estudantes, pesquisadores e profissionais da saúde para discutir como o racismo estrutural se materializa nas desigualdades em saúde e quais experiências históricas de resistência contribuem para a promoção da equidade.

A sessão foi coordenada pela professora Dandara Ramos (ISC/UFBA), que situou o debate no campo da Saúde Coletiva ao defender que o racismo deve ser compreendido como um determinante estrutural da saúde, e não apenas como um conjunto de experiências individuais de discriminação. Segundo ela, embora esse reconhecimento seja relativamente recente nos modelos conceituais hegemônicos da epidemiologia e da saúde pública, as populações negras, indígenas e os movimentos sociais denunciam há séculos os impactos do racismo sobre as formas de nascer, viver, adoecer e morrer. A professora destacou que a ciência frequentemente chega tarde para nomear processos historicamente vivenciados por essas populações e ressaltou a importância de incorporar o racismo como categoria central na produção do conhecimento em saúde.

Em sua apresentação, Dandara também refletiu sobre a trajetória da discussão racial no campo da Saúde Coletiva, lembrando que modelos clássicos dos determinantes sociais da saúde não explicitavam o racismo como eixo estruturante das desigualdades. Para a pesquisadora, nomear o racismo desloca o foco das explicações centradas nos indivíduos para a análise das estruturas que produzem sistematicamente as iniquidades em saúde. Ela ainda ressaltou que esse debate ganha especial relevância no diálogo entre Brasil e Estados Unidos, países marcados pela escravidão, pelo colonialismo e pela persistência de profundas desigualdades raciais, defendendo que compreender tanto o “racismo incorporado” quanto a “resistência incorporada” é essencial para fortalecer uma Saúde Coletiva comprometida com a justiça social. Ao encerrar sua fala, destacou que a presença de pesquisadoras negras conduzindo esse debate em uma instituição pública de excelência representa também uma expressão concreta das trajetórias de resistência construídas por gerações de mulheres negras na ciência e nos movimentos sociais.

Em sua conferência, Sharrelle Barber (Drexel University), propôs uma reflexão sobre as raízes históricas do racismo nos Estados Unidos e seus efeitos persistentes sobre a saúde da população negra. A pesquisadora argumentou que as desigualdades observadas atualmente não podem ser compreendidas apenas por fatores individuais ou comportamentais, mas devem ser analisadas à luz de processos históricos de escravidão, segregação racial, colonialismo e produção institucional da desigualdade. Para Barber, esses processos continuam moldando as condições de vida, as oportunidades sociais e os indicadores de saúde das comunidades negras, especialmente nos estados do sul norte-americano.

Ao apresentar uma reconstrução histórica da formação dos Estados Unidos, a pesquisadora mostrou como a escravidão, as leis segregacionistas conhecidas como Jim Crow e outras políticas públicas produziram uma estrutura duradoura de exclusão racial. Mesmo após os avanços conquistados pelos movimentos dos direitos civis, explicou, novas formas de discriminação passaram a operar por meio de políticas aparentemente neutras, mas que continuam limitando o acesso da população negra à saúde, à educação, à moradia, ao trabalho e à participação política. Para Barber, compreender essa continuidade histórica é fundamental para interpretar os atuais padrões de adoecimento e mortalidade observados no país.

A palestrante também apresentou resultados de pesquisas desenvolvidas no sul dos Estados Unidos, especialmente no estado do Mississippi, evidenciando que regiões historicamente marcadas pela segregação racial continuam concentrando os piores indicadores de mortalidade infantil, mortalidade materna, doenças cardiovasculares e acesso aos serviços de saúde. Segundo ela, esses padrões demonstram que o racismo deve ser compreendido como um fenômeno estrutural, incorporado aos territórios, às instituições e às políticas públicas, produzindo impactos concretos sobre a saúde das populações ao longo das gerações.

Outro aspecto enfatizado por Barber foi a necessidade de deslocar o foco exclusivo das pesquisas sobre os danos produzidos pelo racismo para incluir também as experiências de resistência construídas pelas comunidades negras. Inspirada por lideranças históricas e por movimentos sociais do sul dos Estados Unidos, a pesquisadora defendeu que a produção científica deve reconhecer as formas coletivas de organização, solidariedade e mobilização que permitiram enfrentar séculos de violência racial. Segundo ela, compreender essas experiências de resistência é igualmente importante para explicar processos de proteção da saúde, fortalecimento comunitário e promoção da equidade.

Ao concluir a conferência, Sharrelle Barber destacou que o enfrentamento das desigualdades raciais em saúde exige não apenas o reconhecimento da história do racismo, mas também o fortalecimento de políticas públicas comprometidas com a justiça racial, a democracia e os direitos humanos. Para a pesquisadora, produzir conhecimento sobre racismo estrutural significa contribuir para transformar as condições que continuam produzindo sofrimento, ao mesmo tempo em que valoriza as trajetórias de luta que sustentam avanços em direção a sociedades mais justas e saudáveis.

O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).