Sessão realizada no Dia Mundial da Saúde Sexual reuniu pesquisadores da Universidade do Porto e do ISC/UFBA para discutir direitos sexuais, diversidade, violência, envelhecimento e novas perspectivas de pesquisa             

O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) realizou, na última sexta-feira (4), mais uma sessão do Saúde Coletiva em Debate, com o tema “A Pesquisa em Gênero e Sexualidade em Portugal: interfaces com a Saúde Coletiva”. Realizado no Dia Mundial da Saúde Sexual, o encontro promoveu o intercâmbio de experiências e resultados de pesquisas desenvolvidas em Portugal, destacando suas possibilidades de diálogo com a Saúde Coletiva brasileira.

Coordenada pela professora Estela Aquino (ISC/UFBA), a sessão reuniu quatro pesquisadores da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP): Alexandra Oliveira, Ana Luísa Patrão, Conceição Nogueira e Pedro Alexandre Costa. O encontro também celebrou uma parceria acadêmica construída há mais de uma década entre pesquisadores da Universidade do Porto, o ISC/UFBA e o estudo ELSA-Brasil.

Na abertura, Estela Aquino destacou a relevância da colaboração entre as instituições. A aproximação teve início há mais de dez anos, a partir da vinda de Ana Luísa Patrão ao ISC/UFBA para realizar um pós-doutorado, experiência que deu origem a uma relação acadêmica que se ampliou posteriormente. A parceria resultou em um programa de cooperação de três anos com a Universidade do Porto, envolvendo intercâmbio de pesquisadores e produção científica conjunta. Mesmo após o encerramento dos financiamentos iniciais, a colaboração continuou de forma orgânica, fortalecendo o diálogo entre diferentes campos e perspectivas sobre gênero, sexualidade e saúde.

Com formação predominante nas ciências comportamentais, os pesquisadores portugueses desenvolvem estudos que dialogam diretamente com questões centrais da Saúde Coletiva, como desigualdades sociais, interseccionalidade, direitos, acesso à saúde e condições de vida.

A escolha do dia 4 de setembro para a realização do debate também foi simbólica. A data foi estabelecida em 2010 como Dia Mundial da Saúde Sexual pela World Association for Sexual Health (WAS).

Durante a sessão, foi ressaltada a necessidade de compreender a saúde sexual a partir de uma perspectiva positiva, integral e baseada em direitos, que não se limite à prevenção de infecções sexualmente transmissíveis ou de doenças. O conceito envolve também bem-estar, autonomia, liberdade, prazer, intimidade, segurança e direitos sexuais.

Pesquisas apresentadas durante o encontro mostraram que uma vida sexual satisfatória está associada a melhores indicadores de bem-estar, incluindo menor ocorrência de sintomas de depressão e ansiedade e maior qualidade de vida e satisfação com a vida. Apesar desses avanços, os pesquisadores destacaram que dimensões como prazer, satisfação, direitos sexuais e justiça sexual ainda são pouco exploradas em determinadas populações e contextos, especialmente em países do Sul Global.

Grupo de Investigação em Sexualidade e Gênero

A pesquisadora Ana Luísa Patrão apresentou o Grupo de Investigação em Sexualidade e Gênero do Centro de Psicologia da Universidade do Porto, que reúne pesquisadores dedicados a diferentes dimensões fundamentais e aplicadas da sexualidade, saúde sexual e gênero.

O grupo desenvolve pesquisas sobre correlatos psicofisiológicos da sexualidade humana, intervenções de saúde sexual baseadas em evidências, violência sexual e de gênero, identidade de gênero e sexualidades diversas, além de projetos que articulam diferentes abordagens e metodologias.

Ana Luísa também abordou a criação do Observatório Mundial de Saúde Sexual, iniciativa que ganhou forma em 2025 a partir de uma parceria entre a Universidade do Porto e a World Association for Sexual Health. O observatório tem como perspectiva fortalecer a produção e circulação internacional de conhecimento sobre saúde sexual, direitos e justiça sexual. O protocolo que deu origem à iniciativa foi assinado em 4 de setembro do mesmo ano, durante as atividades do Dia Mundial da Saúde Sexual na Universidade do Porto.

SHAPE amplia produção de dados sobre saúde sexual

Outro destaque da apresentação de Ana Luísa Patrão foi a experiência portuguesa de implementação do SHAPE (Sexual Health Assessment of Practices and Experiences), questionário desenvolvido no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS) para apoiar a coleta de dados sobre práticas, comportamentos e resultados relacionados à saúde sexual.

Portugal foi o primeiro país a aplicar o instrumento em uma amostra representativa de sua população. A experiência contribuiu para a criação, em setembro de 2025, do Observatório Nacional de Saúde Sexual de Portugal, voltado à produção, organização e disseminação de evidências científicas sobre o tema. Ana Luísa Patrão participou ativamente da implementação do SHAPE em Portugal, experiência que possibilitou a produção de dados nacionais e contribuiu para o desenvolvimento de novas iniciativas de pesquisa em saúde sexual.

O SHAPE contempla uma ampla variedade de dimensões, incluindo gênero e sexualidade, saúde reprodutiva, ISTs, violência sexual, comportamento sexual, problemas sexuais, direitos e justiça sexual, satisfação, prazer, bem-estar e educação sexual. A iniciativa também começa a ganhar espaço no Brasil, com esforços para incorporar questões do instrumento ao ELSA-Brasil, ampliando a possibilidade de investigação da saúde sexual ao longo do curso de vida.

Dados de Portugal revelam desigualdades e desafios

Pedro Alexandre Costa apresentou resultados preliminares do SHAPE em Portugal, realizado com 2.010 participantes, com média de idade de 50 anos. Embora a maioria dos entrevistados tenha relatado satisfação com a vida e com a própria saúde física e mental, apenas 26% declararam estar satisfeitos com sua vida sexual no último ano.

Os dados também apontaram diferenças importantes nas experiências sexuais entre homens e mulheres e entre diferentes grupos de orientação sexual e identidade de gênero. Entre os participantes, 21,6% das mulheres afirmaram nunca ter se masturbado, contra 5,7% dos homens. As pesquisas identificaram ainda que 20% dos participantes relataram dificuldades sexuais que provocavam sofrimento, incluindo questões relacionadas à ejaculação, orgasmo, dor e baixo desejo sexual.

Outro aspecto que chamou atenção foi a ocorrência de discriminação e violência entre pessoas LGBTI+. Entre pessoas trans e de gênero diverso, por exemplo, 50% relataram ter sofrido discriminação por profissionais de saúde. Também foram relatadas experiências de agressão física, violência sexual e discriminação no ambiente de trabalho.

Os dados sobre prevenção também evidenciaram desafios: 39% dos entrevistados afirmaram nunca ter utilizado métodos de prevenção de gravidez ou ISTs ao longo da vida, enquanto quase metade nunca havia realizado teste para HIV e mais da metade nunca havia feito testes para outras ISTs.

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a compreensão da saúde sexual para além de indicadores biomédicos e incorporar dimensões relacionadas às experiências, aos direitos, às desigualdades e às diferentes formas de violência.

Diversidade de pesquisas e perspectivas

Alexandra Oliveira e Conceição Nogueira apresentaram outras linhas de investigação desenvolvidas pelo grupo da Universidade do Porto. Entre elas estão estudos sobre envelhecimento e saúde sexual, sexologia clínica, violência de gênero e sexual, diversidade sexual e de gênero, trabalho sexual, assistência sexual, relações raciais e relações não monogâmicas.

Os pesquisadores também desenvolvem estudos envolvendo pessoas LGBTQIA+, pessoas não binárias, pessoas intersexo, envelhecimento de pessoas trans, identidade lésbica e terapias de conversão, além de pesquisas sobre a relação entre religião e população LGBT.

Um dos pontos destacados foi a importância de combinar métodos quantitativos e qualitativos. Embora instrumentos como o SHAPE permitam produzir dados amplos e comparáveis, as metodologias qualitativas possibilitam compreender experiências, trajetórias, narrativas e subjetividades que não são plenamente captadas pelos questionários.

A professora Conceição Nogueira também abordou a assistência sexual para pessoas com deficiência, tema ainda pouco discutido no Brasil e em Portugal. A questão envolve diferentes modelos de apoio à vivência da sexualidade e suscita debates sobre autonomia, direitos sexuais, ética e cidadania.

Além de apresentar resultados e projetos, o encontro reafirmou a importância da cooperação internacional para a produção de conhecimento em Saúde Coletiva. Os pesquisadores da Universidade do Porto destacaram o interesse em continuar a parceria com o ISC/UFBA por meio de artigos científicos, intercâmbios acadêmicos, visitas de pesquisadores e novos projetos de pesquisa.

O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).