O Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia realizou mais uma edição do Saúde Coletiva em Debate, promovendo uma reflexão crítica sobre a financeirização das políticas públicas e seus impactos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e os direitos sociais. A atividade reuniu os professores Lena Lavinas e Iderlei Colombini Neto, ambos do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em um encontro marcado pelo diálogo entre economia política, saúde coletiva e políticas públicas.

Na abertura da sessão, o professor Luís Eugênio de Souza, coordenador da atividade, destacou a importância de trazer para o campo da saúde coletiva discussões sobre financeirização, capital fictício e os impactos das dinâmicas econômicas globais sobre o SUS. Segundo ele, o cenário contemporâneo exige que instituições acadêmicas aprofundem o debate crítico sobre os efeitos da economia financeirizada na organização das políticas de saúde e da proteção social. Luís Eugênio também ressaltou a relevância da parceria entre o ISC/UFBA e o Instituto de Economia da UFRJ no desenvolvimento de pesquisa sobre financeirização e saúde.

Ao iniciar sua exposição, Iderlei Colombini destacou que o conceito de financeirização, embora amplamente utilizado, ainda gera muitas dúvidas e diferentes interpretações. Segundo ele, a proposta da mesa era justamente construir uma compreensão do conceito acessível aos que não têm formação em economia.

O pesquisador explicou que a financeirização não se restringe ao crescimento do setor financeiro, mas envolve uma transformação ampla da lógica social e econômica contemporânea. Em sua análise, a lógica financeira passa a orientar diversos setores da vida social, inclusive as políticas públicas, fazendo com que saúde, educação e infraestrutura sejam organizadas segundo expectativas de rentabilidade e valorização de ativos financeiros.

Durante a fala, Iderlei chamou atenção para a expansão das parcerias público-privadas (PPPs) e para a incorporação de mecanismos financeiros no setor público, destacando que serviços como saúde e educação deixam de ser organizados prioritariamente a partir das necessidades sociais e passam a responder às exigências de valorização do capital financeiro. “Não é só o setor financeiro que fica com parte do valor gerado. É uma lógica que passa a organizar todos os setores da sociedade, inclusive o Estado”, afirmou.

O professor também problematizou os impactos desse processo sobre o mundo do trabalho e sobre as formas de gestão pública. Segundo ele, a expansão da terceirização e de modelos empresariais na administração de serviços públicos está diretamente relacionada às exigências de rentabilidade impostas pelos mercados financeiros.

Na segunda parte da sessão, Lena Lavinas aprofundou a discussão sobre o caso brasileiro, destacando que o Brasil foi um dos países pioneiros do Sul Global na implementação de mecanismos que introduziram a lógica da financeirização nas políticas sociais. Em tom crítico, a economista afirmou que o país consolidou uma lógica econômica centrada na remuneração do capital financeiro, em detrimento do investimento direto em bem-estar social, saúde e educação.

Ao discutir o cenário brasileiro, Lena explicou como políticas de austeridade, juros elevados e mecanismos de endividamento passaram a reorganizar as relações entre Estado, mercado e população. Segundo ela, a lógica rentista atravessa hoje toda a sociedade, alcançando inclusive as camadas populares. “Todo mundo quer ter dinheiro (aplicado no mercado financeiro) para pagar as contas. Isso é um país de rentista”, afirmou durante a apresentação.

O evento contou com tradução em Libras e está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).