A professora Leny Alves Bomfim Trad, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), participou, na sexta-feira (18), da sessão especial “Memória dos 40 Anos da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco”, realizada durante o 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), em Manaus (AM).

A atividade reuniu atuais e ex-coordenadoras da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) para recuperar momentos, personagens e transformações que marcaram a trajetória da área ao longo de quatro décadas. Além de Leny Trad, participaram da mesa Cecília Minayo, Luiza Garnelo, Reni Barsaglini e Tatiana Gerhardt, com mediação de Martinho Silva, ex-coordenador da Comissão.

Com uma trajetória de destaque na Abrasco, Leny Trad já coordenou a Comissão de CSHS, foi vice-presidente da Associação e ocupou a função de coordenadora adjunta da área de Saúde Coletiva na Capes. Durante a sessão, sua fala recuperou especialmente as transformações vividas pela Comissão a partir dos anos 2000 e os esforços para ampliar a representatividade e institucionalizar as Ciências Sociais e Humanas no campo da Saúde Coletiva.

Em sua fala, Leny relembrou sua participação na preparação do congresso realizado em Florianópolis, em 2005, momento em que a Comissão discutiu sua identidade e decidiu incorporar o termo “Humanas” à denominação da área.

A mudança não foi apenas uma alteração de nomenclatura. Segundo a pesquisadora, aquele processo também provocou uma reflexão sobre a composição da própria Comissão e sobre a necessidade de enfrentar sua predominância branca e ampliar a diversidade e a representatividade nos espaços de decisão da Abrasco.

Nesse contexto, Leny destacou movimentos que contribuíram para a chegada de Luiz Eduardo Batista à diretoria da Associação e para a criação de grupos de trabalho que, até então, encontravam dificuldades para se institucionalizar, entre eles o GT Racismo e Saúde e o GT Pessoas com Deficiência.

Outro aspecto destacado por Leny foi o processo de institucionalização da área, impulsionado, entre outros fatores, pela criação dos cursos de graduação em Saúde Coletiva e pela aproximação entre a Comissão e os programas de pós-graduação.

Para a pesquisadora, a ampliação da participação institucional também contribuiu para uma mudança na própria concepção de liderança. Ao comentar esse processo, Leny defendeu o fortalecimento de uma atuação coletiva, sintetizada na afirmação de que “quanto menos vocês lembrarem o nome do coordenador da comissão, melhor”. A ideia expressa a importância de construir uma Comissão cuja atuação não dependa de lideranças individuais, mas esteja sustentada por uma estrutura coletiva e institucionalizada.

Leny também recuperou o Congresso de São Paulo, cujo tema “Usos e Abusos das Ciências Sociais em Saúde” colocava em debate a utilização superficial de conceitos, métodos e teorias das Ciências Sociais no campo da Saúde. Para ela, aquela reflexão contribuiu para que a Comissão ampliasse seu olhar para além da produção acadêmica e questionasse o sentido de uma ciência desconectada das necessidades e dos processos sociais.

A contribuição de Leny para a história da Comissão também foi destacada pelas demais participantes da sessão. Tatiana Gerhardt, ao relembrar sua própria trajetória na CSHS, contou que ingressou na Comissão em 2013, quando recebeu de Leny o que chamou de um “bastão”, dando continuidade a um processo de construção coletiva.

Gerhardt destacou ainda iniciativas desenvolvidas durante esse período, como a formação de um núcleo gestor com representação das diferentes regiões do país e a preocupação com questões étnico-raciais. Também mencionou o Projeto Perfil, coordenado por Leny Trad, que realizou um levantamento sobre pesquisa, ensino e extensão em Ciências Sociais nos programas de pós-graduação em Saúde Coletiva.

O projeto foi uma das iniciativas lembradas como parte do processo de ampliação e organização da área, ao lado de outras ações voltadas à produção de memória, formação, pesquisa e articulação institucional.

Quatro décadas de Ciências Sociais e Humanas em Saúde

A sessão especial integrou a programação do 10º CSHS e marcou os 40 anos da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco, reunindo diferentes gerações de pesquisadoras que participaram de sua construção.

Ao recuperar essa trajetória, o encontro evidenciou mudanças na identidade da área, na organização institucional da Comissão, na diversidade de seus integrantes e nos temas incorporados à agenda das Ciências Sociais e Humanas em Saúde.

Para o ISC/UFBA, a participação de Leny Trad na sessão representa também a presença de uma pesquisadora do Instituto em uma história construída coletivamente ao longo de quatro décadas, conectando diferentes gerações e reafirmando a contribuição das Ciências Sociais e Humanas para a compreensão e transformação dos processos de saúde e doença no Brasil.