*Por Arthur Lopes
A persistência das doenças infecciosas e os desafios para a proteção materno-infantil marcaram a abertura do semestre do seminário “Saúde Coletiva em Debate”, promovido pelo Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (ISC/UFBA) no último dia 21 de agosto. O encontro reuniu especialistas, estudantes e profissionais de saúde para discutir como as desigualdades sociais e as falhas na prevenção agravam a vulnerabilidade na gestação.
A sessão foi conduzida pela professora emérita do ISC/UFBA, Maria Glória Teixeira, que mediou a apresentação da epidemiologista Enny Paixão, professora da London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM). Utilizando grandes volumes de dados do sistema de saúde brasileiro, a pesquisadora tem mapeado os riscos e as consequências das infecções contraídas durante o pré-natal.
Apesar dos avanços históricos na Saúde Pública, como a erradicação da varíola e o controle da poliomielite, a carga das doenças infecciosas continua representando um problema de grande relevância.
Nesse sentido, a pesquisadora desconstruiu a ideia de que essa batalha estaria “vencida”, lembrando os impactos recentes de epidemias como a da zika em 2015, a pandemia de Covid-19 e os surtos recorrentes de dengue e chikungunya. Esse cenário é agravado pelo que chamou de “policrise”: uma combinação de recessões econômicas, conflitos globais, resistência microbiana, mudanças climáticas e a crescente hesitação vacinal. Contudo, os efeitos desta policrise não são vividos da mesma maneira por todas as pessoas, as desigualdades socioeconômicas e raciais têm um papel fundamental no processo de determinação de quem sofre as suas piores consequências.
Ao analisar dados sobre a sífilis gestacional no Brasil, a epidemiologista demonstrou que mulheres pretas e pardas enfrentam um risco muito maior de receber diagnóstico tardio e tratamento inadequado em comparação com mulheres brancas. O debate deixou claro que esses números não refletem comportamentos individuais, mas sim falhas estruturais que barram o acesso equitativo das populações vulnerabilizadas aos serviços de saúde. Além disso, durante a gestação, existem alterações no organismo que podem aumentar a gravidade de algumas infecções e, em determinados casos, afetar também o desenvolvimento do concepto, podendo levar à prematuridade, anomalias congênitas ou óbito fetal.
Para proteger gestantes e conceptos dessas infecções — que podem deixar sequelas imediatas ou consequências silenciosas de longo prazo no neurodesenvolvimento —, a imunização desponta como uma das principais linhas de defesa. A vacinação materna age como uma proteção em “dose dupla”: imunizantes como o da gripe evitam quadros graves na mãe, enquanto as vacinas contra a coqueluche (dTpa) e o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) transferem anticorpos que protegem o recém-nascido nos primeiros meses de vida.
A professora Maria Glória Teixeira lembrou o sucesso dessa estratégia no passado, que permitiu ao Brasil eliminar os graves casos de tétano neonatal. Garantir a efetividade dessas estratégias de prevenção exige um sistema de vigilância forte e investimentos contínuos em pesquisa. Mesmo diante de retrocessos orçamentários, as doenças infecciosas seguem ativas, exigindo monitoramento rigoroso.
Ao reunir evidências epidemiológicas, experiências da assistência e questões relacionadas às desigualdades sociais, o debate reforçou que enfrentar as doenças infecciosas durante a gestação exige não apenas ampliar a prevenção e a vacinação, mas também garantir acesso oportuno e equitativo aos serviços de saúde.
O evento está disponível no canal do ISC no Youtube (link acima).






