Por Camila Pessoa

O país enfrenta dificuldades para voltar a cumprir metas de cobertura vacinal e as notícias falsas estão entre as maiores responsáveis por esse problema

O Brasil está correndo risco de voltar a ter surtos de doenças que antes eram controladas por conta de uma redução na cobertura vacinal, em parte causada pela desinformação. O “1º Seminário Desinformação sobre Vacinas: caminhos para a integridade da informação” expôs a gravidade do problema e a preocupação de profissionais da Saúde e pesquisadores na área. 

O evento ocorreu na sexta-feira (15), no auditório do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA). A iniciativa faz parte do projeto de pesquisa “Ecossistemas multiplataforma e ataques à integridade da informação em saúde: impactos, padrões de disseminação e estratégias de mitigação”, desenvolvido pelo Programa Integrado de Economia, Tecnologia e Inovação em Saúde (PECS), do ISC/UFBA, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNpq).

O Programa Nacional de Imunizações (PNI), implementado em 1973, levou ao controle de doenças que antes levavam a centenas de mortes. “Eu fico triste ao falarmos sobre a hesitação vacinal. Durante a minha carreira vi casos de tétano e difteria que hoje não existem devido à vacinação”, lamentou Maria da Glória Teixeira, pesquisadora do ISC/UFBA e coordenadora do projeto, na mesa de abertura do evento

Em 2018, a hesitação vacinal voltou a chamar atenção da comunidade médica e científica com a constatação de uma queda na cobertura vacinal. “A vacina é vítima do próprio sucesso”, disse o diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde da Bahia (SESAB), Ramon Saavedra, na “Mesa 3: Ciência, confiança e desinformação em saúde – Vacinação, saúde pública e os efeitos da desinformação”. Há uma tendência, já observada pela ciência, de queda na cobertura vacinal após campanhas mais abrangentes.

Isto ocorre porque a incidência da doença diminui, mas o número de reações adversas (que são raras) aumenta, fazendo com que a população tenha uma percepção negativa das vacinas. Este problema é agravado pela desinformação, que amplifica e distorce as possibilidades de reações ao imunizante. 

Para quantificar esse fenômeno, o projeto de pesquisa criou seu próprio modelo teórico, específico para a desinformação em vacinas. “Em toda a revisão da literatura que fizemos, não encontramos nenhum modelo para tratar desse tema”, disse a doutoranda em Saúde Coletiva e participante do projeto Maria Paula Caldas. 

O novo modelo trata o espalhamento de informações falsas como uma infecção. “Estamos fazendo uma leitura da desinformação como se fosse um vírus, com uma grande proporção de disseminação para aqueles que não estão infectados”, explicou o coordenador do PECS, Márcio Natividade. Essa disseminação ocorre principalmente nos aplicativos de mensagem, como WhatsApp e Telegram, ambientes de difícil rastreabilidade. 

São justamente essas plataformas que a pesquisa está monitorando. Para lidar com o grande volume de dados, a equipe usa métodos computacionais que coletam mensagens e posts quase em tempo real. Isto também evita a perda de materiais que foram deletados pouco após sua publicação, na tentativa de evitar sanções legais ou provenientes da plataforma.

“O que antes estava na deepweb hoje está na superfície, principalmente nos aplicativos de mensagem. O Telegram se tornou um hub de vários ecossistemas criminosos”, enfatizou a doutora em Antropologia Letícia Cesarino, uma das integrantes do projeto e palestrante no evento. Esses ecossistemas se utilizam de relatos pessoais, apelos religiosos e medo para gerar engajamento.  

“Emoções vendem mais que ciência e algoritmos vêm para favorecer isso”, comentou Marcele Paim, doutora em Saúde Pública e professora do ISC/UFBA. As plataformas, como Instagram, Facebook e TikTok, tornam o consumo de informações cada vez mais regido por esses algoritmos, enfraquecendo a circulação de informações confiáveis do jornalismo tradicional. A doutora em Comunicação e professora da Faculdade de Comunicação da UFBA Suzana Barbosa resumiu: “a desinformação está num contexto marcado pela plataformização da vida”.

Existem grupos que se aproveitam desse ambiente para lucrar com informações falsas. “A desinformação virou um modelo de negócio, tanto com a geração de anúncios, quanto com a venda de produtos e serviços”, afirmou o coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA e um dos integrantes do projeto, Leonardo Nascimento.

Segundo a secretária-adjunta de Comunicação Social da Presidência da República, Nina Santos, o Governo Federal encara a desinformação como ameaça institucional e atua em eixos como monitoramento, capacitação, responsabilização e diálogo com influenciadores e mediadores.

A solução para o problema também passa por entender que apenas a conscientização por meio da comunicação não é suficiente. É preciso entender como as pessoas produzem sentido em seus territórios para traçar estratégias e investir em educação no SUS.

Veja todas as fotos pelo Flickr do ISC.